Victor Civita - Biografia

por Roberto Pompeu de Toledo

 

Vostro padre è impazzito.

Nova York, setembro de 1949. Os meninos acabam de voltar da escola. A mãe os chama e lhes faz a leitura da carta que acaba de receber do pai, ausente de casa já há mais de dois meses. Venda isto, dê aquilo, dizia a carta. Não esqueça de tal coisa, atenção para aquela outra. Embale o resto e venha. A mãe termina e tem a reação que teriam todas as outras mulheres ao receber correspondência semelhante: "Vostro padre è impazzito". Sim, papai é divenuto pazzo. Perdeu a razão. Amalucou.

O pai em questão era o italiano, ou, mais propriamente, milanês, nascido em Nova York, Victor Civita; a mãe, a romana Sylvana; e os meninos, os dois filhos do casal, Roberto, de 13 anos, e Richard, de 10. "Embale o resto e venha." Ir para onde? Brasil, esta era a ordem. Mesmo para uma família acostumada a deslocações, o salto era de arrepiar. Até agora, as deslocações haviam se limitado ao universo mais reconhecível, e seguro, do Hemisfério Norte. Basicamente, ao eixo Itália-Estados Unidos. Agora a ordem era ir lá para longe, uma terra distante da qual lhes faltavam as referências, da qual não conheciam a língua nem os códigos. Não é coisa pouca, para quem quer que seja, tal mudança. É um convite para prender a respiração e saltar no escuro. Ainda mais considerando, como no presente caso, que o chefe de família responsável por tal decisão não era nenhum menino. Já contava 42 anos. Tudo se revela menos surpreendente, no entanto, quando se tem em conta a natureza profunda do personagem. Pois esse senhor Victor Civita, o pazzo da carta, era, conforme se verá ao longo desta história, um especialista em saltos no escuro.

Cinco meses depois, a família chegava ao Brasil, onde a esperava o marido e pai. Mais cinco meses, e aparecia o primeiro número de O Pato Donald. Nascia a Editora Abril. Tudo foi muito rápido. Tudo era muito rápido com ele. "Visionário" - eis o qualificativo campeão quando parceiros, colaboradores, empregados, amigos ou conhecidos se referem a Victor Civita."Fazedor", "resolvedor de problemas", eis os vice-campeões. O antigo diretor dos fascículos da Abril, Pedro Paulo Poppovic, diz que ele "não cabia na pele, de vitalidade". Era um profissional do entusiasmo. Cláudio de Souza, um dos funcionários mais antigos, descreveu, em artigos que publicou na morte de Civita, a entrevista que teve com ele quando se candidatou a uma vaga na jovem empresa, em fevereiro de 1951. O local era o 9º. andar do número 118 da rua João Adolfo, no centro de São Paulo, o endereço da Abril de então. Tudo pareceu a Cláudio muito simples e quieto. Não mais do que um total de três pessoas trabalhavam nas duas ou três salas que percorreu. Para quem estava, como o candidato à vaga então oferecida, acostumado à agitação das redações, o ambiente lembrava um convento. Quando chegou a Civita, este o recebeu de pé. E falou, falou, falou - "praticamente sem tomar fôlego", escreve Cláudio. "Quando me dei conta do que tentava transmitir-me", acrescenta, "julguei a princípio que falava de uma outra e trepidante organização editorial, e não daquela sua pacata confraria, da qual saía apenas uma modesta revista impressa em tipografia." Cláudio de Souza concluiu que aquele tresloucado interlocutor estava já "embarcado totalmente no futuro".

 

Atrás do barítono

Victor Civita, apesar de filho de uma família de antigas raízes italianas, nasceu em Nova York - no número 6 da Charles Street, bairro do Greenwich Village - por um motivo admirável: porque o pai, Carlo Civita, saiu correndo atrás da filha do barítono. Carlo Civita era um órfão criado por duas tias, professoras em Mantova. Um dia foi para Milão e ficou milionário, mas antes de ficar milionário conheceu Vittoria, filha de um barítono de alguma nomeada, Michelangelo Carpi, de cujo repertório constava um elogiado Fígaro em "O Barbeiro de Sevilha". Um dia Carpi foi convidado para dar aulas num conservatório de Chicago, e para lá se mudou com a família. Carlo foi atrás, para não perder Vittoria, e casou com ela nos Estados Unidos, onde o casal teve os dois primeiros dos três filhos: César, nascido em 1905, e Victor, em 1907 - 9 de fevereiro de 1907. Em 1909, apenas dois anos depois do nascimento da segunda criança, a família fez a travessia de volta para a Itália, e fixou-se em Milão.Ali nasceria o terceiro filho, Arthur, em 1912, enquanto Carlo Civita se embrenhava numa multifacetada carreira de empreendedor. Entre outras coisas, teve uma fábrica de embalagem de leite e uma empresa de importação de equipamento para postos de gasolina. O filho Victor não se distinguiu nos estudos. Não conquistou mais que um diploma de curso secundário, no Instituto Técnico de Estudos Comerciais, de Milão. Em casa, entre outras atividades excitantes, os meninos Civita cumpriam o ritual anual de transferir para as garrafas o vinho que Carlo Civita costumava comprar em tonéis para os doze meses de consumo da família. Depois colavam rótulos às garrafas, especificando neles a procedência do vinho e o ano da safra. Fora de casa, um dos programas de Victor eram as óperas do Teatro Alla Scala, de Milão, onde o pai mantinha camarote permanente. Ali, aprendeu as árias que, pela vida afora, já não fosse neto do barítono, entoaria. Na hora de prestar serviço militar, alistou-se na Força Aérea Italiana. Chegou a pilotar aviões abertos, do tipo usado na I Guerra Mundial. Aos 20 anos, o pai deu-lhe uma passagem para os Estados Unidos, pôs-lhe mil dólares no bolso e ordenou: "Vire-se". Foi sua universidade. Perambulou por 27 cidades americanas, ao longo de onze meses, visitou fábricas, conheceu negócios e costumes. Na volta, assumiu tarefas crescentes nos negócios do pai. Numas férias em Veneza, hospedado num hotel do Lido, conheceu Sylvana Alcorso, filha de um rico comerciante de Roma. Casaram-se em 1935. E assim ia a vida, solta, confortável, doce como podia ser, para pessoas nascidas em famílias aquinhoadas por bons fluidos e boas posses, até que...Até que, já se adivinha, esboçaram-se no horizonte as nuvens que prenunciavam a II Guerra. Acresce que tanto os Civita quanto os Alcorso eram judeus. E começou, para os judeus, a provação insana, e bárbara, e absurda, das leis raciais do regime de Mussolini. Os judeus eram proibidos de casar com não-judeus, de trabalhar no governo, de dar aulas, de... Tão absurdo era aquele tipo de legislação que a princípio nem se acreditava que fosse para valer. O governo chegou a proibir que os judeus tivessem empregados não-judeus. Ora, a casa romana dos Alcorso contava com os serviços de quinze empregados, todos não-judeus. Havia o jardineiro, o motorista, o pessoal da arrumação e da cozinha. Parecia, para quem viu o filme de Vittorio De Sica, a mansão que aparece em O Jardim dos Finzi Contini - que por sinal eram parentes, não dos Alcorso, mas dos Civita. Nenhum empregado queria ir embora. Mas a dona da casa, conhecida por Nini - a mãe de Sylvana - acabou por perder a paciência e, ela própria, resolveu ir-se. Viajou a Paris, sem marido nem ninguém. Os meses passavam, a família pedia-lhe para voltar, mas não voltava. Não voltou. Do lado dos Civita, o patriarca Carlo, de passagem pelos Estados Unidos, leu um dia no jornal The New York Times o artigo em que um cientista - sim, "cientista" - afirmava que os judeus italianos não podiam ser considerados italianos. Como assim? E o que era ser educado na língua italiana, na ópera, na leitura de Dante e Petrarca, no culto de Garibaldi e na admiração das obras de Leonardo e Michelangelo? O absurdo ultrapassava todos os limites. Carlo resolveu ir embora.

 

Rumo aos EUA

De seu lado, o casal Victor-Sylvana, que a esta altura já tinha o filho Roberto, nascido em 1936, saiu no início do ano fatídico de 1939. Foram inicialmente para Londres, onde Sylvana chegou grávida, e disfarçando a gravidez, pois as autoridades britânicas preferiam evitar que nascessem em seu território - e assim, de acordo com a lei do jus solis, tivessem direito à cidadania britânica - filhos de estrangeiros. O filho Richard nasceria em Londres (e teria, sim, direito à cidadania britânica), mas a família não esquentou lugar naquela praça. Foi para a França e, de lá, embarcou para os Estados Unidos, no Rex, o navio italiano mais famoso da época. Para quem se lembra de outro clássico do cinema italiano, Amarcord, de Federico Fellini, o Rex é o navio que, numa linda cena, passa ao largo de Rimini, a cidade onde se localiza a história, para grande admiração da população local, que, mesmo sendo noite, põe-se ao mar em barquinhos para ver de perto aquele portento. O Rex era o orgulho da indústria italiana - ou, como se diz no filme, "la grande realizzazione del regime". Os Civita pegaram sua última viagem. Seguiu-se o apocalipse - sobre a Europa, sobre as rotas transatlânticas, sobre o mundo.Nos Estados Unidos a família ficaria dez anos. Não que Victor Civita se desse mal. Engajou-se numa fábrica de embalagens finas - para perfumes, sobretudo - e chegou, bom vendedor que sempre foi, a conquistar uma pequena participação acionária no negócio. Mas não estava realizado. Pretendia mais da vida. No verão do Hemisfério Norte de 1949, o mundo já saído do pesadelo da guerra, a família vai passar as férias na Itália. A idéia era matar as saudades e fazer as crianças conhecerem a terra dos ancestrais. Na Itália, Victor reencontra o irmão César, igualmente em férias. César estava estabelecido, desde o início dos anos 40, na Argentina. Ali fundara uma certa Editorial Abril, cujo símbolo era uma árvore, e lançara uma revistinha chamada El Pato Donald. César, que desde cedo fora trabalhar na Mondadori, uma das maiores editoras da Itália, ali se tornara responsável pela versão italiana das revistas Disney. Quando veio a guerra, procurou Walt Disney, nos Estados Unidos, e obteve dele licença para publicar as revistas na América do Sul. Estabeleceu-se em Buenos Aires e os negócios iam bem, mas os rumos da Argentina peronista causavam-lhe uma ponta de preocupação. Um líder populista, que acumulava crescentes poderes, mobilização de massas, um apelo ao orgulho nacional que beirava a xenofobia - assaltava-lhe a sensação de ter visto este filme antes. Na conversa com Victor, naquele verão, na Itália, César disse que estava pensando em diversificar os negócios. O Brasil, ali ao lado da Argentina, parecia promissor.E se tentássemos? E se o irmão concordasse em engajar-se num empreendimento brasileiro? Victor resolveu interromper as férias e ir naquele momento mesmo, com César, à América do Sul. Com ele, como sabemos, tudo era muito rápido. Foi primeiro à Argentina, conhecer a Editorial Abril. Dali seguiu para o Rio de Janeiro, depois para São Paulo. Gostou mais de São Paulo. A cidade era mais do feitio de um milanês. Disseram-lhe que implantar uma editora em São Paulo não daria certo. Era uma província. Não tinha os jornalistas, os artistas gráficos, os recursos necessários ao setor. Victor insistiu, e o resto já se sabe. Está resumido naquela famosa carta, mandada a Nova York, para onde a família já regressara, e na sentença que a coroou: "Vostro padre è impazzito".

 

"Como peixe n' água"

Victor Civita instalou-se numa saleta na rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, contratou uma secretária, arrumou um telefone e foi à luta. A residência da família era o Hotel Esplanada, o mais nobre da cidade, atrás do Teatro Municipal, onde fica hoje a sede do Grupo Votorantim. No dia 12 de julho de 1950, saiu o primeiro número de O Pato Donald.Civita tinha, para a empreitada que então se iniciava, US$ 500 mil em recursos próprios. Além dos empréstimos que levantou na praça, entraram como sócios o grupo Smith de Vasconcelos, e, sobretudo, Gordiano Rossi, um mineiro filho de italianos que seria seu parceiro nas primeiras décadas da Abril. Toda empresa que cresce muito, quando se volta às suas origens, e se verifica quão pequena e desimportante era, causa espanto, mas no caso da Abril o espanto é maior. Civita era um recém-chegado, sem o traquejo do país, sem saber quem mandava e quem obedecia, onde ficavam as coisas, qual o melhor caminho para isto ou aquilo... Mesmo a área editorial lhe era estranha. E, no entanto, já naqueles primeiros meses, comportava-se, nas palavras do filho Roberto, "como peixe n'água". Em 1951 mudou da rua Líbero Badaró para a João Adolfo, onde a Abril - diretoria e redações - permaneceria até ficar pronto o prédio da Marginal do Tietê, em 1968.Também em 1951, inaugurou sua primeira gráfica, na rua Nova dos Portugueses, bairro de Santana. Passou a ir lá quase todos os dias. Aos sábados, levava os envelopes com o pagamento do pessoal e os distribuía pessoalmente. Nesse primeiro ano a gráfica tinha doze empregados. Cada um recebeu de presente, no Natal de 1951, um panetone e uma garrafa de Cinzano. De madrugada, vez ou outra, Civita ia à praça Antônio Prado, onde se reuniam os jornaleiros para apanhar seus repartes dos jornais, ali mesmo, na rua. Falava-lhes das virtudes de O Pato Donald e lhes pedia que o exibissem bem nas bancas. Conhecia-os pelos nomes. Entre todos, ficou mais amigo de Pedro Favalle, que conheceu naqueles primeiros anos e mais tarde seria contratado como fornecedor dos jornais para a Abril, tarefa que cumpre até hoje. Também sondava o mercado, na tentativa de ampliar seu espaço. O publicitário Mauro Salles teve o primeiro contato com Victor Civita quando trabalhava como jornalista em O Globo e fazia uma coluna sobre automóveis. Entrou na redação um senhor de pastinha. "Sabe quem eu sou?", perguntou-lhe o homem. "Sei. O senhor é o editor da revistinha que mais vende no Brasil." Àquela altura O Pato Donald tinha passado os concorrentes. Victor Civita ficou satisfeito de ver-se reconhecido, a si e a seu trabalho. Abriu a pastinha e mostrou o Pato. Falou do plano de fazer uma revista de automóveis. No fim, Salles perguntou se ele não queria ser levado a Roberto Marinho, o dono de O Globo. "Não", respondeu Civita. "Ainda não." Mauro Salles ficou com a impressão de que ele desejava se dar um tempo para poder falar de igual para igual com outros editores brasileiros. De volta à rua João Adolfo, Civita pedia a Cláudio de Souza que lhe corrigisse o português. Tarefa difícil. Corrigir uma pessoa "cujos pensamentos voavam bem à frente de sua expressão", escreveu Cláudio, revelou-se penoso para ambos. "Muitas vezes, uma correção absolutamente inadiável cortava seu raciocício, e isso o exasperava." Em casa, naquela ocasião, antes, depois e sempre, falava italiano. Os filhos, criados nos Estados Unidos, tinham tendência para cair no inglês, mas a mãe decretara: "In questa casa, si parla italiano". Se não falassem nessa língua, ela não ouviria.

 

"Elementos femininos"

A exigência de que falasse italiano, além de ter "tato", figurava num anúncio publicado no jornal O Estado de S. Paulo, no qual, em maio de 1960, "importante organização localizada no centro" procurava "elementos femininos, para direta colaboração com seu diretor superintendente". Luisa Crema, uma filha de italianos com perfeito conhecimento do idioma, foi ver do que se tratava. Dirigiu-se à rua João Adolfo, no número indicado, e logo ei-la na frente daquele senhor que não parava de falar, e dizia que procurava uma secretária, mas não uma secretária qualquer, e sim dotada de tais e tais qualidades, e cumpridora, e disciplinada. Embarcaram tanto, os dois, na conversa, e só em italiano, que a certa altura Civita interrompeu-se e lembrou de perguntar: "Espera. Você fala português também?" Ela falava. Luísa tornou-se sua secretária pelo resto da vida. Era um tempo, o começo, em que o idioma italiano circulava pela Abril como moeda pequena. Marisa de Braud, outra italiana, contratada para fazer Manequim, lembra-se de Civita logo cedo passando na redação para verificar se o pessoal já havia chegado. Ela lhe dizia, de longe: "Buon giorno, signor Victor". Com as colaboradoras femininas, como Marisa, ou os "elementos femininos", como dizia o anúncio no jornal, o "signor Victor" podia revelar-se cheio de encantos. Gostava de distribuir-lhes galanteios -"aqueles galanteios de italiano", diz Marisa, "feitos por brincadeira, por alegria".A história dos sucessos de Victor Civita - e da Editora Abril - é um pouco, ou talvez muito, a história dos sucessos do Brasil no mesmo período. Victor Civita aliou a capacidade de trabalho ao fino talento para manter sua caravela a favor do vento, de modo a aproveitar-se das mesmas forças que impulsavam o país de modo geral. Acreditou em São Paulo, e escolheu-a para sede de seus empreendimentos, no momento certo. Se, na década de 50, esquentou os motores com as revistas infantis e as fotonovelas, em 1960 lançou Quatro Rodas na euforia da indústria automobilística, a joia da coroa do desenvolvimentismo juscelinista. Os fascículos vieram a preencher a demanda cultural da parte de uma classe média que melhorara de vida. É famosa, nos anais da Abril, a reunião em que se resolveu lançar fascículos. Doze diretores foram convocados para decidir, primeiro, se se deveria realmente lançá-los, e, em caso positivo, qual lançar. Os presentes foram unânimes em desaconselhar os fascículos liminarmente. Invocava-se, entre outros argumentos, que a própria palavra fascículo não era conhecida do público. Civita ouviu-os, agradeceu-lhes as opiniões, e emendou em seguida que esquecera de informar que, naquela reunião, tinha 51% dos votos. Sentia muito, mas, como possuidor dos tais 51%, acabara de se decidir a favor do lançamento dos fascículos.Convidou-os então a partir para o item dois da pauta - qual fascículo lançar. Os dois candidatos mais fortes eram uma enciclopédia e uma edição da Bíblia, de criação da italiana Fabbri, chamada A Bíblia Mais Bela do Mundo. Civita agora abriu mão dos alegados 51% dos votos. "Eu prefiro a enciclopédia", disse, "mas vocês é que decidirão" - e saiu da sala.Optou-se pela Bíblia. A enciclopédia ficou para ser lançada posteriormente. O primeiro número da Bíblia vendeu 150 mil exemplares. A enciclopédia, lançada com o título Conhecer, bateu a marca dos 500 mil exemplares.

 

Receita para tudo

Histórias como esta revelam o homem das audácias, o atleta do salto no escuro. Certo dia, apresentou-se ao filho Roberto com a idéia de fazer hotéis turísticos pelo Brasil afora. "E que entendemos nós de hotéis?", objetou Roberto. Respondeu com outra objeção: "E que entendia Nick Hilton antes de fazer seu primeiro hotel?" Foi feita a cadeia de hotéis, batizada de Quatro Rodas. Noutra ocasião, perguntou a Roberto se sabia quantos armazéns frigoríficos havia no Brasil. Roberto mal sabia para que serviam armazéns frigoríficos."Nenhum", arrematou o Civita mais velho. "E eu vou fazê-los." Fez. O gosto de fazer superava o de manter e continuar, algo que ficava mais a cargo dos filhos. Quando Victor Civita tomou consciência de quem era Victor Civita, o que geralmente acontece em fase já avançada da vida, e passou a exibir-se como Victor Civita, repetiu, em inúmeras entrevistas e discursos, que a palavra que mais detestava era "não". Tudo lhe parecia possível. Era mestre em reverter a favor o argumento, ou situação, que em princípio se apresentava contra. "Diziam-me que no Brasil as pessoas não liam", escreveu uma vez no Latin American Daily Post. "Talvez fosse verdade. Mas havia muito pouco para ler, e eu me disse: 'O potencial é tremendo'." O filho Richard, na mesma linha, diz que o comum das pessoas, visitando uma cidade, e verificando que ali não há teatro, concluirão que não há público para isso, e portanto seria vão tentar abrir um. Victor Civita, ao contrário, veria aí uma oportunidade. Esse povo deve estar ansiando por um teatro, pensaria. Vamos fazer um. A fúria empreendedora não se detinha diante de conjunturas desfavoráveis, como a que se apresentava no país em dezembro de 1963 - época de grandes incertezas, em que o governo João Goulart adotava um discurso crescentemente esquerdista, a oposição respondia com articulações de cunho crescentemente conspiratório, e no horizonte vislumbravam-se horrores como talvez um golpe, talvez uma revolução, quem sabe uma guerra civil. Numa reunião de fim de ano, presentes, na casa de Civita, com as respectivas mulheres, meia dúzia de amigos, todos empresários, a certa altura um começou a dizer que ia vender tudo, outro que tinha decidido frear os planos de expansão, outro ainda que ia mudar de país... Civita informou: "Pois eu acabo de comprar uma nova rotativa"... "Como? Neste momento?", estranhou um dos amigos. "Qual é o problema?", replicou Civita. "Se me confiscarem a empresa, fico sem nada do mesmo jeito. E eles, com uma empresa melhor."Tinha receita para tudo. O diretor financeiro da Abril, José Augusto Pinto Moreira, lembra-se de uma reunião com o hoje ministro Francisco Dornelles, então secretário da Receita Federal, em que Civita gastou o tempo dizendo a Dornelles o que devia fazer. Roberto Civita lembra-se de uma reunião com Faria Lima, então prefeito de São Paulo, em que Civita ficou o tempo todo explicando como administrar a cidade. Uma vez ele foi ao BNDE (então sem o "S" que mais recentemente acrescentaria à sigla) perguntar ao diretor, Garrido Torres, por que a instituição não financiava indústrias gráficas. "Porque o BNDE foi criado para fomentar a indústria de base", respondeu Torres. "E gráfica não é base? A cultura, os jornais, os livros, não são a base do desenvolvimento de um povo?", perguntou Civita. "Pode ser", devolveu Torres, "mas tenho de seguir os estatutos do banco, e dos estatutos não consta que o setor gráfico seja indústria de base." "Está errado", insistiu Civita. "Tem que mudar." E tanto teimou, e fez, e aconteceu, que o BNDE acabou modificando seus critérios.Abriu-se para o setor gráfico, e Civita conseguiu financiamento para a compra da rotativa que tinha em mente na ocasião.

 

O primeiro a chegar

O visionário, o audaz, o saltador no escuro e desafiador das improbabilidades convivia, talvez paradoxalmente, com um "perigoso detalhista", como diz o vice-presidente e diretor editorial da Abril, Thomaz Souto Corrêa. O detalhista era filho do disciplinado que dormia cedo e acordava cedo, comia pouco, bebia não mais que um copo de vinho, nas ocasiões em que tinha de beber, e mantinha a mesa de trabalho tão arrumada quanto eram alinhados os ternos que vestia. De uma pontualidade que irritava os parceiros e subordinados, era sempre o primeiro a chegar aos eventos, e ralhava com os outros porque não tinham chegado na hora.Convivia mal com o hábito, comum à raça dos jornalistas, de chegar tarde ao local de trabalho, contrapartida, na referida raça, a outro hábito, o de trabalhar até tarde. Gostava de citar o regime adotado em seus escritórios, nos primeiros tempos, por J. C. Penney, o dono da cadeia varejista americana de mesmo nome. Penney às quinze para as 8 postava-se à porta e ia recebendo os empregados um a um, dizendo-lhes bom-dia. Às 8h15, fechava a porta.O perigoso detalhista revelava-se também nos bilhetes que mandava para os editores das revistas:A Mário de Andrade, então diretor de Playboy: "Refiro-me à página de abertura com a Brunet: acho que o calendário deveria ser mais legível. Sendo os números dos dias muito pequenos, não deveria sair na impressão em quatro cores, mas sim em preto e branco, sobre fundo de quadradinhos brancos ou amarelos".A Fátima Ali, então diretora de Nova: "Nas páginas 98, 99, 100, 101, as maiúsculas que iniciam os parágrafos são muito pesadas e, diria, até feias".A Thomaz Souto Corrêa: "Como cultor do bom uso do nosso idioma, preocupa-me ter notado por várias vezes em nossas revistas a confusão entre as palavras 'mitificar' (criar mitos) e 'mistificar' (enganar, iludir) (...) Conto com sua permanente vigilância nesta e nas demais questões pela causa do uso correto do nosso belo idioma".Ainda a Thomaz Souto Corrêa: "Todas as nossas revistas têm erros de ortografia. Demasiados no que diz respeito ao nome das pessoas. (...) Um reparo a mais: o nome de Joelmir Beting aparece com dois 't', e o nome certo, com um só 't', sai todos.

 

Na roda-gigante

A passagem dos anos 70 para os 80 foi marcada pelo episódio, doloroso para Civita, do conflito entre os filhos. O resultado foi a separação das empresas, ficando Roberto com as revistas e Richard com os fascículos e livros, além da parte não-editorial do grupo, como os hotéis e os frigoríficos. Durante um tempo Victor ficou estremecido com Richard, mas depois os dois voltaram a jogar golfe, uma vez por semana. O golfe semanal era das poucas folgas que se permitia. Vivia para o trabalho e, ao contrário do caso tão freqüente dos empresários que, eles próprios, vão muito bem, enquanto a empresa vai mal, mantinha a empresa sempre melhor, muito melhor, do que a si próprio. Ao morrer, tinha o apartamento em que morava, no bairro de Higienópolis, sem nada que revelasse a residência de um dos principais empresários brasileiros, e outro no Guarujá. O monaco que havia nele perguntou uma vez por que osexecutivos precisavam ganhar quantias tão altas. Dizia que ele próprio precisava de pouco, e vivia com pouco. Quando em viagem, estava sempre entrevistando quem julgava que lhe podia transmitir algo de útil, investigando as últimas, no ramo editorial e outros ramos, farejando novidades. Se ia ao teatro, segundo o amigo Joel Ostrowicz, proprietário do prédio da rua do Curtume por tantos anos utilizado pela Abril, cogitava se não seria o caso de levar a peça no Brasil. Uma das poucas histórias de viagem de Victor Civita em que não entra o trabalho é a que narrou ao diretor do escritório da Abril em Paris, Pedro de Souza, durante uma visita à capital francesa já no fim da vida, quando passara dos 80 anos. "Pedro, sabe onde levei a Sylvana?", começou dizendo. "Na roda-gigante das Tulherias. Que vista maravilhosa." Os piores pensamentos passaram pela cabeça de Pedro de Souza. E se ele tivesse se sentido mal? E se ocorresse um acidente? Disse: "Por favor, seu Victor, nada de aventuras".Victor Civita não se interessava por política. Como tantos empresários que não distinguem a gestão de um negócio da de uma sociedade, achava que a política atrapalhava. Não deixava fazer. Como editor, mais tinha a ver com a divulgação da cultura e com a oferta de entretenimento do que propriamente com o jornalismo, entendido este como um olhar sobre a atualidade que leva ao fato político e à pesquisa dos conflitos sociais e econômicos. Veja e, antes dela, Realidade, as revistas com as quais a Abril inseriu-se de vez no universo político brasileiro, têm mais a ver com as preferências do filho Roberto. Mais próximas do modo de ser e de operar de Victor Civita estariam fascículos como Gênios da Pintura, As Grandes Óperas e Grandes Compositores, ou coleções de livros como Os Imortais da Literatura Universal ou Teatro Vivo. Não que ele não quisesse ganhar dinheiro. Queria sim, e muito, senão para si, já que era um monaco, para a empresa, mas coexistia com esse impulso "um senso de missão", como diz Pedro Paulo Poppovic. Achava que devia educar o povo. Inclusive porque, educado, compraria mais revistas, fascículos e livros. Nos últimos anos, voltou-se mais que tudo para a Fundação Victor Civita, cujo objeto é a educação. Num dos muitos bilhetes aos filhos que guardava num grande envelope, contendo os desejos post-mortem, dispôs que todo o dinheiro de que dispunha, em contas bancárias, ações ou propriedades pessoais, deveria reverter para a Fundação. Aos filhos, que já tinham as empresas, não caberia um centavo. "Se vocês não conseguirem viver das empresas que possuem, não as merecem", decretou. Sylvana fez um adendo ao mesmo texto explicando que a ordem de destinar os bens pessoais à Fundação incluía suas jóias.

 

O primeiro avião

Victor e Sylvana morreram com uma semana de intervalo. Sylvana ficou doente antes, e permaneceu internada semanas a fio, em coma a partir de certo momento. Victor, enquantoisso, mesmo preocupado e abatido com o estado da mulher, tocava a vida. Na sexta-feira, 24 de agosto de 1990, foi trabalhar, no prédio da Marginal. Disse ao filho Roberto que se sentia um pouco indisposto, mas nada demais. Voltou para casa na hora do almoço. O filho Richard, enquanto isso, visitava Sylvana no hospital, como fazia todos os dias. Ela já estava em coma, mas naquela manhã, inesperadamente, recuperou a lucidez e conversou. Dizia tudo no passado: "Eu fui isto, minha vida foi aquilo, você representou isto e aquilo para mim..." Richard sentiu que ela estava se despedindo. Às 16h30 daquele dia, os dois filhos receberam telefonemas avisando que algo de grave acontecera com Victor. Acordando do sono em que se pusera depois do almoço, tentara levantar da cama e caíra. Estava estendido no chão.Quando chegaram, primeiro Richard, depois Roberto, Victor estava morto. Richard encarregou-se das providências do velório enquanto Roberto voltava à Abril para supervisionar a reportagem de capa que Veja daria sobre o assunto. O velório foi no hospital da Beneficência Portuguesa, a poucos metros do Hospital Osvaldo Cruz, onde Sylvana estava internada. Pouco depois da meia noite, Richard deu uma fugida do velório e foi visitar a mãe. Ela dormia placidamente. Richard sentou-se ao lado e lhe disse: "Você já deve estar sabendo que Victor morreu. Em breve, vocês estarão juntos". Ela continuava a dormir placidamente. "Ciao, bella mamma", disse Richard. Sylvana ficou realmente sabendo da morte de Victor? Richard não sabe, mas desconfia que talvez. A mãe morreria uma semana depois, mas, para Richard, os dois morreram exatamente no mesmo momento. "Deus faz coisas engraçadas", diz Richard, que é religioso - católico, religião na qual foi educado desde criança, apesar da origem judaica. "Meu pai não conseguiria viver um dia sem minha mãe."Entre as lembranças de infância, Victor contava do dia em que o pai levou-o assistir ao pouso do primeiro avião que chegou a Milão. Duas coisas ficaram-lhe gravadas na memória. Uma, que as pessoas aplaudiram. Outra, que a grama se mexia, tanto era o vento produzidopela hélice. Ele não sabia bem a data, mas devia ser muito pequeno para ter os olhos tão no nível da grama. Já muito mais tarde, viajou à Europa no supersônico Concorde, o que lhe parecia fechar uma parábola. A ele, que tinha visto o primeiro avião pousar em Milão, bem criança, e pilotara aviões do tempo do onça, ainda se oferecera a oportunidade de viajar no Concorde. Quanta coisa lhe coubera, entre o avião de Milão e o Concorde... Quanta coisa! Que vida!