Roberto Civita, uma vida dedicada à liberdade de expressão

Roberto Civita nasceu em Milão, no dia 9 de agosto de 1936. Filho de Victor Civita (1907-1990), fundador do Grupo Abril, foi o criador da revista VEJA e era o editor-chefe da publicação desde seu lançamento, em 11 de setembro de 1968. Dr. Roberto ou RC, como era conhecido, assumiu a presidência do Grupo Abril em 1990, com a morte do pai, quando iniciou um período de intensa diversificação dos negócios da empresa.

Ele também fazia parte do Conselho Superior do Instituto Verificador de Circulação (IVC)e do Conselho Deliberativo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Em 2010, idealizou o IAEJ (Instituto de Altos Estudos em Jornalismo), criado com o objetivo de fomentar projetos e iniciativas educacionais de estudos em jornalismo, sempre em parceria com instituições especializadas e reconhecidas. A primeira iniciativa do IAEJ é o curso de ‘Pós Graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial’, em parceria com a ESPM e cuja terceira turma teve início em março de 2013.

Também era membro do Board of Governors do Lauder Institute,do Wharton Advisory Board, da Câmara de Mantenedores do Instituto Millenium e do Board of Visitors da Columbia University Graduate School of Journalism.

Roberto Civita deixou a Itália com 2 anos e morou em Nova York até os 12. Passou a adolescência no Brasil até sair novamente para estudar no exterior. Estudou física nuclear na Rice University, no Texas. Formou-se em jornalismo na Universidade da Pensilvânia e em economia pela Wharton School, da mesma instituição, com pós-graduação em sociologia pela Universidade de Columbia.

Em outubro de 1958, recém-formado e aos 22 anos, começou a trabalhar na Abril. Foi a partir de sua chegada que a editora lançou suas primeiras revistas jornalísticas, a começar pela QUATRO RODAS, em 1960. Em seguida vieram CLAUDIA (1961), REALIDADE (1966), EXAME (1967) e VEJA (1968).

Entre todos os títulos que criou, VEJA era o que contava com maior participação de RC. Não apenas por ter idealizado a publicação que viria a ser a principal do Brasil, mas pelos anos difíceis no começo e a consolidação, sobretudo na década de 90, como a publicação que passaria a atuar decisivamente para mudar a história do país. Uma das capas que mais representaram esse perfil de VEJA foi a da edição que trouxe a entrevista com Pedro Collor de Mello, irmão do então presidente Fernando Collor, em maio de 1992, com denúncias de corrupção no Governo Federal. A entrevista deflagrou uma série de denúncias e investigações de toda a imprensa e do Congresso, assim como o movimento nacional dos “carapintadas” num período de apenas quatro meses até o impeachment de Fernando Collor. VEJA hoje é a segunda maior revista semanal de informação do mundo, com circulação média semanal de 1,071 milhão (IVC, 2012) de exemplares.

Hoje, a Editora Abril publica sete das dez revistas mais lidas do país. No total são 52 revistas, disponíveis em plataformas impressas e digitais, que atingem praticamente todo segmento de público num universo de quase 30 milhões de leitores.

 

Liberdade de expressão, um sacerdócio

O exemplo da capa com Pedro Collor e a consequente mudança do curso da história do país no começo dos anos 90 não seriam possíveis não fosse a incansável luta de Roberto Civita, ao longo de toda sua vida, pela busca da verdade e pela liberdade de expressão. O tema sempre foi um dos pontos centrais de todas as suas palestras, no Brasil e no exterior. Em 2008, durante a III Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa, em Brasília, ele resumiu da seguinte forma seu pensamento:

“ (...) A liberdade de manifestação do pensamento, além de se constituir num direito natural do homem, é o pressuposto básico da democracia e precede todas as demais liberdades por ela asseguradas: a liberdade política, religiosa, econômica, de imprensa, de associação e todas as outras.

A livre manifestação do pensamento e a liberdade de imprensa, porém, não constituem um fim em si mesmo, mas sim um meio imprescindível para garantir a sobrevivência de uma sociedade livre e democrática.

Existe uma indissolúvel interdependência entre democracia, liberdade de imprensa e livre iniciativa, o conhecido tripé que envolve uma das mais extraordinárias simbioses do mundo moderno.

Não custa lembrar que a democracia e a liberdade dependem, para se manter, das informações e da fiscalização que somente uma gama diversificada de veículos independentes pode assegurar. (...) “

Para Roberto Civita, a publicidade representava um dos pilares centrais da imprensa livre e independente. “Sem ela, seria impossível manter a multiplicidade dos meios de informação que divulgam ideias, defendem pontos de vista diferentes, denunciam a corrupção, estimulam o debate político e assim se tornam, nas palavras de Ruy Barbosa, ‘as vistas da nação’. Sem publicidade, repito, não existiria uma imprensa vigorosa, uma imprensa que - sabemos todos e os ditadores mais do que nós - é o alicerce do primado da lei e de uma sociedade aberta”, afirmou no mesmo discurso.

RC também era um apaixonado pelo Brasil, que considerava um país “fascinante”. Ele se lembrava com orgulho de uma palestra feita na Abril, em 1983, na qual condenava uma vez mais a corrupção, mas terminava com a seguinte mensagem: “Da mesma maneira que nos reencontramos nos caminhos da democracia e soubemos mergulhar na abertura sem perder o equilíbrio, tenho a certeza de que – muito antes do que se possa imaginar – reencontraremos o caminho do crescimento econômico. Para isso vai ser preciso repensar e mudar muitas coisas. Mas não tenho dúvida de que, juntos e com muita inteligência e ainda mais trabalho, saberemos fazê-lo”.

 

Educação

RC acreditava que a base para a construção e desenvolvimento de um país era a educação, uma herança do pai, Victor Civita, que criou nos anos 80 a Fundação Victor Civita, dedicada à melhoria da educação básica no Brasil. Foi pela iniciativa de RC que a Abril se tornou ao longo da última década uma das líderes nacionais no segmento. “Estamos convencidos de que o aperfeiçoamento na qualidade da educação é indispensável tanto para o progresso individual quanto para o fortalecimento das instituições democráticas brasileiras e a sustentabilidade de seu desenvolvimento econômico”, afirmou em 2011 às vésperas de receber, em Nova York, um prêmio internacional por seu trabalho em prol da educação.

A vocação da Abril para a educação começou, na verdade, no fim dos anos 60 e começo dos 70. Naquela época, a empresa desenvolveu os primeiros materiais educacionais para o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), que em 20 anos reduziu a taxa de analfabetismo pela metade, entre jovens e adultos no Brasil. Mas foi mesmo a partir do fim da década de 90, com a aquisição das editoras Ática e Scipione, líderes no mercado nacional de livros didáticos, que a Abril se consolidou, tanto pelo trabalho da Fundação como das editoras, como referência nacional no setor.

A conseqüência natural do empenho de RC no segmento foi a criação, em 2007, da Abril Educação, que reúne, além das editoras Ática e Scipione, os sistemas de ensino Anglo, Ser, Maxi e GEO; o Curso e Colégio pH; o Grupo ETB (Escolas Técnicas do Brasil), de São Paulo, a SIGA, curso preparatório para concursos; a Escola Satélite; as escolas de idiomas Red Balloon e Wise Up e a Livemocha, comunidade online de ensino de inglês.

 

Mídia digital e novas tecnologias

Roberto Civita teve papel fundamental também na história da TV brasileira. Foi a partir de seu empenho que a Abril criou, no início dos anos 90, a primeira TV por assinatura do Brasil, a TVA, e a primeira operadora de TV por satélite do país, a DirecTV. RC também trouxe ao país o primeiro canal de TV segmentada, a MTV, em parceria com a Viacom, em 1990. No início da internet brasileira, ele conduziu as negociações que resultaram na parceria entre a Abril e a UOL, hoje controlada pelo Grupo Folha.

RC sempre acompanhou as transformações do mundo impresso para o digital de perto e considerava o crescimento das novas mídias, sobretudo das plataformas digitais, como grande oportunidade para as editoras. Para ele, a Abril não tinha apenas o papel de acompanhar as mudanças, que acontecem cada vez mais rapidamente, mas de seguir em sua liderança também com novas tecnologias sem jamais perder seu foco na busca da verdade, da objetividade e da excelência, independente de qual fosse a plataforma. Para RC, a revolução iniciada por Gutemberg foi tão importante que ainda não terminou, passados mais de 500 anos. “O que fazemos hoje em matéria de imprensa obedece aos mesmos propósitos que levaram nosso patriarca a construir sua primeira prensa: levar informação relevante (no caso de Gutenberg, os ensinamentos da Bíblia) a um número maior de pessoas, por um custo mais acessível”, afirmou em 2008, por ocasião do seu 50º aniversário como funcionário da Abril.